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DE RUÍNAS A CASTELOS: A RECONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE NEGRA JUVENIL

Atualizado: 13 de jun. de 2023

Desmitificando os estereótipos sociais criados para o jovem negro brasileiro, descobrimos um leque de diferenças para além da melanina desses corpos, mas em suas existências.


Estamos mudando o suposto estereótipo sobre imagem atual do homem negro brasileiro — antes marginalizado e sexualizado — para uma representação de um homem negro autêntico, humanizado, político, capaz de dialogar coletivamente, arquitetar ideias criativas, movimentos e tendências.


Mas qual é o lugar dos homens negros na sociedade brasileira que, ao mesmo tempo, exalta homens e invisibiliza mulheres, mas que também inferioriza e nega a humanidade de pessoas negras? Então, podemos dizer que os homens negros são privilegiados ou desprivilegiados dessas relações de poder masculino? Até onde eles partilham das dores e das delícias previstas nos padrões de masculinidade?


Em alguns momentos homens negros usufruem de quase todas as dores e delícias de qualquer homem em uma sociedade machista. Mas, ao mesmo tempo, o racismo destina a esses homens um lugar muito particular quanto a divisão sexo-racial na sociedade atual, os limitando quase sempre a possibilidades de corresponder somente a esses padrões. Podemos falar em “privilégio masculino” quando sabemos que os homens negros estão abaixo até mesmo das mulheres negras em quesitos como mortalidade, encarceramento e violência urbana? Pode um jovem negro “ser homem” e ser cobrado como tal nessa sociedade racista?

O homem negro está presente nas estatísticas mais pessimistas do plano brasileiro. O mapa da violência do ano de 2019, divulgado pelo IPEA, destaca que o índice de homicídio tendo como vítimas os negros (que, na categoria do IBGE, engloba pretos e pardos) 76%. Numa análise geral do instituto, 92% das vítimas de homicídio foram homens. Para homens negros, o extermínio, principalmente de sua juventude, é um fator importante a ser destacado. É universal o medo do homem negro em ser enquadrado pela polícia. Mas qual seria a solução para mudarmos essa estatística? Acredito que devemos pensar no presente de forma diferente e criar caminhos políticos, culturais ou sociais, para assim surgirem novas possibilidades para o futuro da juventude negra. Assim demos inicio ao projeto "DE RUÍNAS A CASTELOS", onde fotografamos três homens negros criativos residentes da cidade de Belo Horizonte, totalmente distintos. PEJOTA, DANIEL RAMOS E RAFAEL CÂNDIDO mostraram a singularidade que existe em seus corpos negros e masculinos, representando a perspectiva de descolonização e assim fazendo florecer rotas para uma nova forma de pensar.



GESTOR DE PROJETOS & PRODUTOR ARTÍSTICO/EXECUTIVO



De onde você é ou onde vive atualmente?


Sou do Nova Gameleira, zona Oeste de BH!


Você trabalha com o que atualmente?


Sou Produtor Artístico e Estratégico, mas sou da área de Gestão de Projetos.


Como foi a sua relação com a masculinidade no seu desenvolvimento? Você teve alguma referência?


Minha relação com a “masculinidade” sempre foi algo muito natural pra mim, independente de qualquer questão, nunca entendi assim, mas sempre como algo que eu ia vivendo e paralelo a isso, seria construído. Não tive uma referência “masculina” e acredito que isso no fim das contas, foi mais benéfico do que maléfico porque hoje eu exploro tudo que quero e sinto, sem me ligar a nada e nem ninguém que pudesse estar neste lugar de “referência de masculinidade”.



Como jovem negro, você se sentiu mais pressionado para atingir um certo nível masculino esperado pela sociedade ou família?


Se eu dissesse que não, estaria mentindo, porque qual a pessoa preta que não foi e ainda é cobrada por tudo e todos o tempo inteiro, não é mesmo?! Então comigo não foi e não é diferente, mas vamos vivendo fazendo o nosso, com a certeza de que nosso legado vai ser deixado de forma que as próximas gerações possam viver menos pressões e mais liberdade.


Como você definiria a masculinidade negra nos dias atuais?


Falando sobre mim, eu definiria como aquilo que se é, da forma mais real e genuína, lidando com as dores e sabores de ser quem sou. Essa é a minha definição literal, do que é a masculinidade preta.




RAPPER





De onde você é ou onde vive atualmente?

Belo Horizonte, moro na zona sul.

Você trabalha com o que atualmente?

Atualmente trabalho com música, sou rapper/cantor.

Como foi sua experiência crescendo como homem negro? Você teve alguma referência? Crescer como um homem negro é um pouco complicado, infelizmente já sofri muito preconceito (que muitas vezes eu nem percebia) principalmente pelo lugar onde cresci que é predominantemente ocupado por pessoas brancas, então no princípio nunca tive amizades com outras pessoas negras além do meu irmão… são muitos traumas que a gente carrega, até certa idade da adolescência eu queria ser branco, realmente.





Como um jovem negro, pai de um jovem negro, como você idealiza o futuro dessa juventude que está crescendo?

Eu espero o melhor futuro para o meu filho, desde cedo prezo por mostrar pra ele a valorização da nossa cor, de ser quem nós somos… acredito que as crianças negras de hoje vão ter uma auto estima que nós já tivemos.


O que você acha da pressão que a sociedade impõem para que homens negros alcancem ou se encaixem em certos estereótipos para serem considerados masculinos?


Eu acredito que essa pressão da sociedade existe só pelo fato de você ser um corpo negro, infelizmente o preconceito e pressão é muito grande para se tornar masculino atraves de expressões, sejam de personalidade, de roupa..




MODELO, HAIRSTYLIST & TRANCISTA



De onde você é ou onde vive atualmente?


Eu cresci no Sagrada Família, bairro lá da ZL… Mas atualmente moro no Juliana, uma quebrada de Venda Nova, ZN.


Você trabalha com o que atualmente?


Eu sou formado em Design e Comunicação, atualmente trabalho com Marketing Digital e Trancista, também um dos diretores criativos do coletivo Sweet Idea.


Como foi sua experiência crescendo como homem negro?


Acredito que, assim como toda pessoa preta de pele clara, chega um certo momento da sua vida em que você “descobre” que é preto, pelo simples fato de não se encaixar em lugar algum… Cresci escutando comentários do tipo "Você não é escuro o suficiente pra ser considerado preto, mas também não tem o cabelo liso para ser considerado branco". E foi ai que eu comecei a buscar pessoas que se pareciam comigo, para poder justificar e afirmar a minha negritude. E Mano Brown era o cara perfeito pra esse papel, pois ele não tinha uma pele escura mas em contra partido ele tinha traços (nariz largo, boca grande, cabelo crespo) que se igualavam a mim, ou seja esse cara foi e ainda é uma grande referência pra mim!






O que diferenciava a sua masculinidade durante a sua adolescência?


Minha adolescência, mais especificamente o ensino médio, foi uma virada de chave pra mim quanto jovem homem preto e gay… Ser gay no ensino médio vai além de você ser uma “bixinha” que anda com um grupinho de meninas gatas… É literalmente um ato político, o momento onde você já não pode mais aceitar piadinhas homofóbicas e racistas. É saber se posicionar referente a situação como essas.


Como você enxerga seu lugar jovem negro nessa sociedade?


Tem uma frase de um dos caras mais zika desse plano, que diz a seguinte coisa:

“Eu não sinto que eu vim, eu sinto que eu voltei” - Emicida


E é literalmente isso… Sei que sou apenas mais uma pessoa nesse plano, mas enquanto eu estiver por aqui, vou fazer o suficiente para que meus irmãos e minhas irmãs se sintam confortáveis e felizes sendo pessoas pretas. Felizes com seu tom de pele, textura do cabelo etc..


Você acredita que existe alguma expectativa da sociedade para que você atinga um certo padrão de homem negro? Como você se opõe a isso?


Ser um homem negro e gay em uma sociedade extremamente racista e homofóbica, é um desafio… pois a minha vida inteira ouvi que homens (principalmente negros) não podem ser frágeis, eles não podem demonstrar sentimentos e qualquer coisa que os aproximassem mais da “feminilidade” os tornam fracos. Homens pretos sempre são Hipersexualizados, e é por isso que eu tento fugir do estereótipo do “negão” que não pode usar certo tipo de roupa, cabelo...




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