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Entrevista com CORRERUA

Atualizado: 24 de jan. de 2022

Enquanto a elite branca lucra com e ao mesmo tempo ridiculariza costumes periféricos, Fernanda Souza vulgo CORRERUA segue na contramão buscando celebrar toda a estética da subcultura jovem que borbulha dentro das favelas.



Atenta aos detalhes das roupas, aos penteados dos cabelos crespos, ou ao design dos diversos tênis de mola que infestam as ruas dos subúrbios paulistas, com sua câmera a jornalista e artista Fernanda Souza conhecida como CORRERUA, procura celebrar essas (sobre)vivências culturais jovens, registrando os costumes nascidos naquela área.


Quem é de lá, automaticamente se identifica com o trabalho de Fernanda, retratando coisas do dia a dia, empoderando jovens com editoriais de moda e projetos artísticos com identidade periférica, além de estar presente fotografando em eventos de grau (244) pelas quebradas e bailes funks, movimentos que são uma forma de lazer para a juventude pobre onde 100% das vezes são criminalizados, independente de ocuparem um espaço que os pertence por direito.

Conversamos um pouco com a artista para sabermos mais sobre seu trabalho, sua visão sobre a valorização da juventude de periferia, sobre grandes empresas procurarem a solução dentro da favela mas não considerarem a vivencia, trabalho, esforço e pesquisa feita pelos profissionais que vivem nessas vielas.








Qual a sua idade? Você nasceu/reside em qual quebrada de SP?

Tenho 26 anos de sobrevivência! Nasci aqui em São Paulo no extremo da Zona sul, Grajaú. Hoje, ainda resido no Grajaú.


De onde e quando surgiu o seu vulgo “CORRERUA”?


Quando eu comecei escrever como jornalista para o Portal da KondZilla e fazer as fotografias do cotidiano, a galera começou a falar para eu ir pro Instagram, pois eu estava fora das redes sociais havia cerca de 3 anos. Na hora de criar, eu pensei em um nome que tivesse haver com o que eu estava fazendo e parte da minha personalidade, a qual é andar muito nas quebradas, trocar bastante ideia com as pessoas e frequentar muito baile. Juntando, aliás, com a personalidade de estar sempre correndo pois eu sempre estou no corre pra ter minhas parada. Me considero uma atleta, de rua.







Você é jornalista, certo? Como foi para você, uma mulher periférica realizar um sonho de muitos jovens, formar na faculdade, após muito suor e CORRE?

Mano, eu me formei em letras pelo prouni em 2017 no Mackenzie, uma faculdade extremamente racista e elitista, eu sofri muito lá dentro até o último dia de apresentação, inclusive na frente dos meus amigos e familiares que foram.

Não foi fácil, do começo a fim. Desde que fiz cursinho popular em 2012 pois entrar na faculdade me parecia uma forma de mudar de vida. Eu trampava de telemarketing e ia pro cursinho, depois veio a faculdade difícil de manter, pois eu estava morando sozinha (desde meus 17 anos).


Razoavelmente mudou, porque eu ainda não tenho a qualidade que gostaria, nem consigo pagar convênio médico tipo, mas ainda sei que tô melhor que muitos amigos e amigas minhas. E isso dói: correr atrás da melhoria que demora muito. Tô longe da casa própria, juntando grana pro mestrado e o corre não para. Pra você ter ideia, ano passado aos 25 que finalmente eu consegui ter uns lazer básico, sabe? Comer nuns lugares legais, viajar, comprar roupas que queria, sair na rua… baguio eu mil grau.

E tudo isso, eu quero dar ênfase que não é bonito e nem legal, ninguém tinha que correr tanto pra ter o BÁSICO, mano! Seloco, eu ainda tô correndo que nem doída para ter qualidade de vida, e a gente sem querer pode colocar tudo isso como lindo, facilmente invocando a meritocracia. Eu valorizo muito minha caminhada, força de vontade e conquistas, mas sempre lembrando que não gostaria de ter sofrido e que se muitas pessoas não conseguem isso, elas não são culpadas, são vítimas!


Ah, o jornalismo surgiu em 2019, quando eu quis escrever sobre minhas vivências no funk. Na época, tinha escolhido a Vice ou a Kondzilla, pois ambos eram lugares que pareciam aceitar a minha linguagem, porém a Vice tinha acabado de fechar as portas, daí bati na porta da KondZilla, e o editor na época, Renato Martins, me abriu as portas!

Como é para você se esforçar ao máximo (às vezes com poucos recursos) para concretizar projetos artísticos com a galera periférica? E quanto ao processo e o resultado disso tudo?


É muito louco porque hoje eu me entendo como uma multiartista, com potência para criar e desenvolver em vários lugares. Quando eu me esforço é nao só para mostrar para galera nosso rolê (que é a priori disso) mas é também criar portfólio e mostrar que sei fazer. Afinal, eu quero viver do meu trampo, eu quero ganhar dinheiro como artista. Que mal há nisso?

E daí, é isso: trabalha muito e junta dinheiro, depois investe. Eu ainda tô pagando meu editorial “Essas são as meninas que os menino gosta”. Tem noção disso?


O resultado tá aí: eu furei várias bolhas. Gente da moda mais fechada como Glamour e Elle viram, galera do funk de SP de rua mesmo também, pessoal artista, quem é de fora da moda… baguio bateu em vários lugares!


Você acha que falta uma real valorização da cultura de favela por parte da moda? Por que marcas e empresas deveriam ser mais inteligentes acompanhando esse público de perto?


Existe sim, em todos as culturas de favela. Hoje, eu me dedico muito ao funk, embora tenha potencial criativo para falar de outras parada. Então, falando de funk, pouco percebem que somos movimentadores de moda tanto consumindo quanto criando. Pra mim, os muleke de medusa e umbrela já é criação, pois subvertem a estética de um produto para si.

Tudo bem, beleza, tais marcas não tem como público a quebrada, mas existe um setor em todas marcas que é a relação de cultura, galera ligada em relação. Se eles, estão vendo um grupo grande e potencial usando e consumindo, qual problema de fazer e contratar pessoas para esse público? Somente racismo e elitismo, porque eu tenho certeza que as marcas sabem da gente, sem dúvida eles sabem, existe uma coisa chamada “pesquisa de mercado”. Agora, provavelmente eles tem medo de perder o original público pois se associar a gente seria “sujar a imagem”.


Vou te dar exemplo: Houve seeding do Mizuno, eles mandaram para uma única pessoa que produz cultura de quebrada funk, o resto, ninguém. Eu mesma fiquei chateada, parsa não é recalque, olha meu trampo, tudo que faço. Acha que não ia bater uma pá de coisa na cabeça? Mas sabe qual é: meu Instagram é o real lifestyle, não tem nada suavizado. Aqui no Brasil, baguio eh 3000 vezes atrasado.


Por que eles deviam ? Porque somos consumidores e temos potência criativa, demais aliás. Sabia que a cultura Nike Shox foi iniciada aqui no Brasil, com o funk em São Paulo?









Quando você não está trampando ou pensando nos futuros projetos, qual a sua opção de lazer? Seja na favela ou em outros lugares da cidade.


Eu sempre tô trampando, minha cabeça cria 24 horas por dia. Até no meus momentos de lazer. Mas, no geral, eu vou para baile, sobretudo da Dz7 e Helipa. Gosto de ir para rolê nas quebrada, tipo pagode, como colar na Cidade Tira-dentes. Gosto também de sair pra comer, rolê gastronômico é minha paixão ainda mais com meu companheiro... o Neguinho favela. Curto ir em boteco tomar umas, colar no Parque Linear Cocaia (meu lugar favorito). Mano, eu sempre tô na rua, aliás carregando uma analógica hahahah.


Ah, eu gosto de ouvir vinil. Coleciono discos e tenho uma vitrola em casa.


Quando você vê pessoas ridicularizando situações, pessoas e costumes periféricos, possuindo tantos trabalhos que celebram essas vertentes e mostram o potencial que existe na quebrada, qual a sua reação-opinião?


Eu fico muito brava e as vezes bate até um mal estar, tá ligado? Eu não costumo ir causar, eu só foco energia no meu corre e no que tem de ser feito. Deixando pra eles meu desprezo.

Mas é aquilo: no rolê com nois você não vai.


Um tipo de vivência periférica que é a sua favorita? (Pode ser uma mania/costume de família, da sua rua ou da sua área)


O natal! Parsa, eu amo natal. Baguio é comer muito com o pessoal, depois descer pra rua com a garrafa e só voltar 13 da tarde do dia 25. Aquela festa na favela, resumo de fim de ano. Pode ver no meu Instagram que sempre faço um post de natal. Outra parada que gosto é o grau, acho chave o movimento.







Qual foi o trabalho que você mais gostou de concretizar e porque?


“Essas são as meninas que os menino gosta” porque ele mostrou meu potencial criativo, ele foi grande, foi lindo. As meninas estavam perfeitas!!! Tinha muita quebrada funk, mas também muita arte. Foi um trampo bonito, coisa legal de ver. Aliás, demorei um ano para finalizar ele.




Idealização, direção de arte, direção criativa e stylist: @correrua_

Fotografia e foto still: @isabelleindia_

Captação, direção de fotografia, colorização e edição do Fashion Film, Teaser: @petalalopes



Qual a sua música brasileira favorita do momento? Conta pra gente.


No momento? São Paulo do Mc Cebezinho. Achei uma crônica das nossas quebradas, fala muito pra quem é do funk. Como eu também sou amante literária, percebo a arte poética nesse som, bem como no álbum todo dele.


Um sonho seu já realizado?


Ter me formado e ser pedida em casamento, coisas simples de vida.









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