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“MARGENS PLÁCIDAS” A RELAÇÃO ENTRE JUVENTUDE, PERIFERIA & A COPA DO MUNDO

Atualizado: 23 de nov. de 2022

Conheça mais sobre a história de jovens artistas da periferia brasileira e a sua relação com a copa do mundo, suas memórias, vivências, legados culturais e tradições esportivas entre suas famílias, cidades e quebradas.


A cultura e o esporte no Brasil sempre andaram lado a lado, são esses movimentos que ajudam e mudam a vida de pessoas na periferia com pouco acesso.

Mas sem glamourização, todo jovem de periferia sabe como é difícil estar e sobreviver no meio do futebol, mas a nossa paixão pelo esporte sempre foi a maior vantagem, pois quando o amor é direcionado para uma causa - seja ela um jogo da copa que irá unir pessoas ou uma partida comum de bairro que o protagonista da sua área ganhou visibilidade e oportunidades a partir dali - torcer pelo outro está no sangue do brasileiro, o verde e amarelo que corre pelas nossas veias, a cor das nossas matas, do amarelo reluzente dos ouros garimpados pelos nossos ancestrais (sob uma colonização cruel), e o azul que representa todas as cachoeiras, rios e o mar, que sempre foram primordiais para a sobrevivência e historia dos nossos.


O nosso passado e presente está conectado, vemos isso nos enfeites que cruzam os fios de luz das periferias brasileiras todo ano de copa que nos recorda perfeitamente os anos 90 e a união da periferia em prol de mudanças socio-cullturais, no levantar da bandeira, como se fôssemos a luta, juntos, em prol de algo que nos une apesar da diversidade e diferença que ecoa no povo brasileiro (principalmente nesse turbulento momento sócio-político que o país está passando).


O costume de enfeitar ruas surgiu em Ouro Preto, cidade histórica do interior de Minas Gerais. Nas cidades que preservam a tradição, é comum efetivar as ruas por onde passará a procissão. Toda população participa do trabalho e o resultado é um grande mosaico, com símbolos cristãos, locais e nacionais, compondo uma obra de arte como tradição secular.

E essa alegria tradicional nos rostos quando se ouve a frase “esse ano tem copa do mundo” nunca muda. As pinturas nos chãos do nossos bairros, que reflete no olhar das crianças que jogam futebol na rua ao entardecer, em meio aos carros, cachorros e senhoras que zelam por esse espaço que os pertence, que as une.

A relação do Brasil com a copa é definitivamente a mais forte do mundo, contando que somos o país que tem o mais números de títulos mundiais quando se trata de copas. Hoje se totalizam 5 títulos conquistados com muito suor e na garra.


O nosso povo sempre teve um jeitinho que demonstrar amor e mandar forças para aqueles jogadores, em sua maioria vindos das ruas de terras e vielas do país, homens negros, homens sem referências masculinas e com infâncias conturbadas. Enviamos amor através de ações, como cortar o cabelo como o Ronaldo fenômeno ou através de brincadeiras como o "pedala Robinho".


O Brasil é um país com grande riqueza cultural, esportiva e artística, e com a ideia de reforçar e relembrar esse sentimento de celebração, união e do bom-patriotismo, conversamos com alguns jovens das cidades brasileiras sobre suas relações afetivas e memórias sobre as copas do mundo, seus pontos de vista sobre a camisa do Brasil e herança ancestral periférica envolvida em tudo isso.






ONDE VOCÊ CRESCEU E NASCEU?


Nasci no Bairro Primeiro de Maio, ZN, periferia de BH. Me mudei pra um bairro próximo, o São Gabriel, onde vivo até hoje.


VOCÊ TRAMPA COM O QUE?


Sou artista, produtora, trancista e educadora social.


QUAL A LEMBRANÇA MAIS BONITA QUE VOCÊ TEM SOBRE A COPA?

A forma como o evento mobilizava a periferia para decorar as ruas, e como era um pretexto pra reuniões de família e amigos. Isso me encanta no futebol em geral, não só em anos de copa. No Brasil o futebol cativa e movimenta milhares de pessoas que se organizam com uma paixão em comum. Existe a violência e a rivalidade mas isso não representa o que é torcer. Existe muita beleza na relação entre o povo brasileiro e o futebol, e isso vai muito além dos estigmas.






DESCREVA SUA AREA QUANDO É ANO DE COPA DO MUNDO.


Tenho 22 anos, vivi poucas copas mas faz algum tempo que o clima não é o mesmo. não tem mais decoração, nem festa na rua. Copa era tempo de ruas pintadas, bandeiras, orgulho, música. De uns anos pra cá não tem sido assim.


QUAL A SUA PRIMEIRA LEMBRANÇA COM A COPA DO MUNDO?


Creio que a copa de 2006. Nesse ano minha mãe me deu bonés e camisetas com as cores da bandeira (eu quase não tinha acesso a essas coisas) e eu e meus primos brincávamos juntos nos dias de jogos. Geral de verde e amarelo correndo pelo quintal, música alta, adultos de folga e felizes, comemorando (o que era raro acontecer).


NA PERIFERIA, FUTEBOL, ESPIRITUALIDADE E ARTE SALVA, E NA SUA VIDA NAO FOI DIFERENTE, CERTO? NOS CONTE SOBRE SUA RELAÇÃO COM AQUILO QUE TE SALVOU E CONTINUA TE SALVANDO.


Na minha vida a arte representa liberdade, cura. A forma que encontrei de me aproximar do mundo foi a música, mas acabou puxando para as artes visuais, fotografia, artes manuais… dessa forma acabei me conectando com outros artistas vindos da mesma realidade que eu, de suas vivências e individualidades também. Hoje me expresso de várias formas e é como se fosse um antídoto para opressão que sinto.








O FUTEBOL SURGIU NOS SUBÚRBIOS CERTO? ENTAO COMO A CBF NA COPA, O QUE VOCÊ ACHA DE QUEM REALMENTE LUCRA E TIRA PROVEITO DESSE E DE OUTROS MOVIMENTOS CULTURAIS APROPRIADOS PELA GRANDE MASSA E QUE INVIABILIZA A VERDADEIRA RAIZ?


No Brasil, infelizmente, existe um apelo muito grande que vende nossa estética, costumes e valores mas não valoriza nem faz um recorte social dos que realmente constroem a nação, os trabalhadores, o povo. No esporte e na arte não é diferente, quem lucra com isso são grandes empresários e marcas, em qualquer setor. É um traço colonial de exploração.







ONDE VOCÊ CRESCEU E NASCEU?


Nasci em BH, criado no Nova Cintra! Região Oeste.


VOCÊ TRAMPA COM O QUE?

Como barbeiro há quase 10 anos.


OS CORTES DOS JOGADORES FAMOSOS REFLETEM NOS JOVENS DA QUEBRADA? CONTA PRA GENTE A SUA EXPERIÊNCIA SOBRE ISSO.


Com certeza! Ainda mais sendo barbeiro desde os 13 anos, metade da vida vivendo sobre isso mesmo. Os jogadores sempre vão influenciar a quebrada. Das tendências dos cortes de cabelo até nas roupas que usamos também. Mas isso é uma via de mão dupla, pois a quebrada também inspira os jogadores e alguns até se apropriam de forma indevida.






COMO FOI SUA RELAÇÃO COM O FUTEBOL E A SELEÇÃO BRASILEIRA NA INFÂNCIA?


De costume mesmo, quem nasce na periferia sempre quer ser um jogador né.. a maioria pelo menos. Apaixonado por futebol desde criança mesmo, sempre ia nos jogos, acompanhava e torcia pra seleção brasileira.


COMO FOI A EXPERIÊNCIA VIVIDA POR VOCÊ QUANDO A COPA DO MUNDO FOI NO BRASIL? O QUE VOCÊ SENTIU NA ÉPOCA? O QUE FEZ? ASSISTIU OS JOGOS?


Felicidade demais né, loucura ter um evento como este no nosso país! Deu muito role na época, ia nos eventos que tinha... não cheguei a ir nos jogos, por falta de condições mas assisti todos jogos, reunia os amigos e tudo mais.


CULTURALMENTE A PAIXÃO PELO ESPORTE DOS BRASILEIROS VEIO DAS QUEBRADAS ESPALHADAS PELO PAÍS, HOJE SOMOS UM DOS POVOS MAIS CONHECIDOS PELO FUTEBOL, VOCÊ SE ORGULHA DISSO COMO PARTE DO POVO BRASILEIRO DAS PERIFERIAS?


Muito! Tudo de bom que vem de nós, eu me orgulho! No funk, no rap, nos esportes, nas artes! Tudo isso que mostra nossos talentos.








QUAL A MEMÓRIA QUE VOCÊ TEM DA COPA NA SUA ÁREA DURANTE SUA INFÂNCIA?

Lembro da copa de 2006 que nós enfeitamos as ruas aqui na quebrada, mesmo não vindo o título, foi muito dahora essa experiência e a coletividade.


SEJA NA MODA, NO ESPORTE, NA ARTE OU NA BELEZA DOS CABELOS A PERIFERIA VEM SEMPRE CRIANDO CERTO? QUAL VAI SER A MODA QUE A QUEBRADA VAI LANÇAR NO CABELO NESSA COPA? SE NÃO SABE, TEM ALGUMA DICA PRA MULEKADA?


Como barbeiro, acho que o pessoal vai mandar o "nevou", um pouco antes do natal e ano novo (o que já é costume a quebrada descolorir o cabelo para as festas de fim de ano), que é uma marca dos brasileiros.



ACHA QUE O HEXA VEM ESSE ANO?

Esse ano estou bem motivado viu hehe, fé que esse ano vem! Vamo que vamo!








ONDE VOCÊ CRESCEU E NASCEU?


Eu nasci em Venda Nova BH, em um hospital que tinha na Avenida Padre Pedro Pinto, e vivi toda minha infância por lá.


VOCÊ TRABALHA COM O QUE HOJE EM DIA?

Sou produtora executiva e cultural. Faço eventos, gerencio carreiras e escrevo ideias para editais.


QUAL É A SUA RELAÇÃO E DA SUA FAMÍLIA COM O FUTEBOL E A COPA? CONTA UM POUCO PRA GENTE


Meus tios e primos sempre gostaram de futebol. Era comum passar as tardes de domingo assistindo aos jogos do Cruzeiro ou do Galo. Tenho memórias da comemoração do penta em 2002, na casa da minha tia, com direito a muito grito e choro.










NA SUA ÁREA, COMO VOCÊ DESCREVERIA AS PESSOAS EM ANO DE COPA?


Existe uma movimentação para a realização de eventos comemorativos junto às sessões pra assistir aos jogos do Brasil, com shows e bandas especiais. As apresentações musicais das cerimônias de abertura e encerramento parecem ser uma questão importante para os organizadores da Copa também.


SUA LEMBRANÇA MAIS MARCANTE DE UMA COPA? A lembrança mais marcante é a da Copa que aconteceu no Brasil, em 2014. Lembro que participei de diversas festas nas ruas da Savassi e aproveitei muito nos dias de jogos.


COMO FOI PARA VOCÊ TER A OPORTUNIDADE DE VIVER UMA COPA SEDIADA NO BRASIL? Foi um momento divertido e parecia que todo mundo falava sobre a mesma coisa e torcia junto. Parecia que a esperança no hexa ainda tinha forma (até o episódio estranho do 7x1).







A BLUSA DO BRASIL HOJE SE TORNOU ALGO VIRAL EM OUTROS PAISES (TIPO A MERDA DO BRAZILCORE), E FOI DURANTE UM TEMPO ASSOCIADA A MOVIMENTOS POLITICOS DE DIREITA, MAS A PERIFERIA E O MOVIMENTO HIP HOP VEM RESIGNIFICANDO ELA E TOMADO DE VOLTA, QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE ISSO? Acho legal o movimento de tomar a bandeira para si. Eles tentaram fazer parecer que o Brasil só tinha uma cara branca e conservadora. Nós somos muitos Brasis dentro de um só e é bonito ver nossas várias caras de novo. COMO A ARTE E O ESPORTE TE INFLUENCIARAM NA INFÂNCIA?

Sempre tive a música por perto. Minha mãe é cantora e tem uma coleção grande de vinis e CDs. Gostava das coisas que ela ouvia: soul, jazz, samba, disco, muita música romântica de todos os tipos. Era pequena e ouvia sobre sentimentos grandes, acho que isso me fez melancólica desde sempre. Quanto ao esporte, era muito ativa na escola e gostava dos esportes de quadra, tipo basquete e vôlei. Era péssima no futebol. Só lembro dele na televisão. VAMOS FALAR SOBRE AS MULHERES NO ESPORTE E NA ARTE, TEM ALGUMA QUE VOCÊ CONHECE OU TE INSPIRA? (CITE DE AMBAS ÁREAS) No esporte, conheço e acompanho o trabalho da Serena Williams. Na música, as inspirações são muitas: Tina Turner, Rihanna, Beyoncé, Diana Ross, Missy Elliot, Lil Kim, Amy Winehouse e Mary J. Blige são algumas. O QUE VOCÊ ESPERA PARA A COPA DESSE ANO? Não sei se espero muita coisa. A ideia de comemorar pelo Brasil ainda me parece estranha. Se for possível, espero que a gente saia menos capenga do que entrou.




DIRECAO DE ARTE E FOTOGRAFIA ANDRÉ BORGES, ESTRELADO POR NATÁLIA, YNAÊ E LUCAS TORRES NAS RUAS DE BELO HORIZONTE.

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