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“POR BAIXO DOS PANOS”

A moda brasileira ditada sob a perspectiva do jovem negro foi e continua sendo uma forma de arte e resistência, se popularizando globalmente nos dias de hoje através das periferias.


Para quem não tá ligado, o Brasil é o pais mais negro fora da África. Quem diz isso são os próprios brasileiros, 56,1 % da população se autodeclara preta ou parda (Segundo o IBGE 2021).


Vemos o reflexo da estética preta na beleza e também na moda cotidiana. Principalmente nos dias de hoje. A volta dos cachos e crespos, o grande número de modelos e atrizes negras nas capas de revistas e tv, empresas e marcas com referências afro, a popularização da cultura preta em geral, são frutos do pensamento coletivo e do ativismo digital.

Mas pra quem não sabe, a moda sempre foi um divisor de classes e grupos, e não à toa é considerada uma das maiores formas de expressão, já que é uma maneira das pessoas falarem sem emitirem sequer uma palavra.

O acesso ao que está em "alta" sempre foi negado às classes mais baixas, que ficam à beira das sobras do que há alguns meses foi julgado pela elite como revolucionário, interessante ou inovador.

O Brasil, como país colonizado, teve influência das diversas culturas que estavam aqui durante o período de colonização, essa influência ocorreu também na nossa moda. As pessoas escravizadas sequestradas para essa terra, influenciaram nossos hábitos e costumes, alimentação e também a moda, tendo referências até hoje. Você já pensou quantas tendências possuem influência da cultura africana?


Porém, se inspirar em referências afro-periféricas vira um problema quando existe uma tentativa de apagamento das suas comunidades de origem ou até a marginalização delas.


Mas é inegavelmente aceita e até celebrada, quando se trata da elite reproduzir essas mesmas tendências. Porque atualmente não é interessante pras patys e playboys reproduzirem as atitudes dos antigos ricos padrões. A moda agora é ser “desconstruído”. Aquela dos mesmos criadores do “Eu não sou racista”, “Tenho um amigo negro”, agora temos o “Não sou playboy, uso juliet, faço cortinho na sobrancelha, vou a bailes e eventos de funk.”

Alguns exemplos dessas referências periféricas entre as novas tendências de moda atuais são: o bigode fininho, adotado por rappers e figuras do funk há muito tempo, o cabelo raspado com desenhos, os biquínis, roupas íntimas à mostra, óculos espelhados, prata ou ouro nos dentes, unhas de gel e etc.


Com o objetivo de exaltarmos e mostrarmos a cara dessa juventude negra real que dita moda no Brasil, estilo de vida e estéticas, sempre reinventadas, selecionamos alguns jovens criativos envolvidos no mundo da moda que usam a representatividade periférica em diversos detalhes desde seus trabalhos ao dia-a-dia.



(MODELE, DJ, GESTORE CULTURAL)







Você trabalha com o que atualmente? Algo ligado à moda também?

Eu trabalho com muitas coisas pra ser sincero, mas atualmente tenho trampado mais como Dj e com produção. Mas faço direção, gestão cultural, sou modelo e mais um monte de coisa. Na maioria desses rolês a moda está junto! Quando eu tô em cima do palco, ou no estúdio, nas produções… a forma com que me visto, a imagem que eu passo, são formas de me comunicar e interferem em como eu realizo meus trabalhos.


Descreva com uma palavra a moda na periferia.


ENCRUZILHADA!





Como você definiria seu estilo? Tem alguma peça ou outfit que você tem preferência?


Então, muitas vezes é difícil nomear/classificar o meu estilo, porque sendo uma pessoa trans não-binária e preta, eu circulo e me aproprio de diversos elementos de diversos estilos, saca?! Mas uma peça clássica que eu amo é o cropped, encaixa em praticamente qualquer look e qualquer camisa pode virar um cropped, então eu acabo usando bastante.


A quebrada sempre lançou moda, isso é fato. Você lembra de alguma época marcante envolvendo a moda na sua vida?

Nossa, é foda viu, foram vários momentos icônicos na história da moda nesse país. Um dos que lembro bem foi aquela febre do jeans ali pelos anos 2010, todo mundo usando jeans em tudo que é peça diferente, short, jaqueta, blusa, até tênis e legging imitando a estampa jeans rolava. E é lógico que até hoje o jeans reina, porque né?!


Onde você costuma comprar suas peças?


Brechó, bazar e garimpos e produtores independentes, praticamente sempre. Acho que a última vez que eu comprei uma roupa em shopping ou loja convencional foi quando meus pais compravam as roupas pra mim.




Jovens negros que você acompanha atualmente na moda?

Então, são muitas refs, mas eu destacaria neste momento o Pina lá do Rio, a Dyoni da Trashreal, os meninos da Dendezeiro e a galera da QUEM aqui de BH.


Qual responsabilidade que a periferia carrega após serem os principais ditar moda no Brasil e consequentemente, globalmente?


Acredito que não cabe tanto a ideia de responsabilidade no sentido de que a gente produz o que movimenta o cenário/mercado. Acho mais interessante a gente entender que o que nós produzimos e está sendo produzido nas periferias aí de todo o Brasil, são uma encruzilhada de referências, de potência e de vivência de rua; e sendo assim a gente tem que passar o que a gente vive e saber que eles tão de olho prontos pra roubar mais uma vez nossas ideias, nosso estilo, e a nossa cultura de forma geral. É importante a gente saber que a mensagem tem poder pra assim saber o que fazer com ele.

Além de peças de roupas e acessórios, as tranças também são parte da moda e usadas pela juventude negra como forma de expressão corporal. Qual a sua relação com a arte de trançar o cabelo?

As tranças são um elemento importantíssimo da construção e desenvolvimento da estética e auto estima nas quebradas, mas muito mais que isso, são tecnologias ancestrais milenares, saber disso é essencial. Minha irmã gêmea da vida é trancista e com ela eu aprendo muito sobre esses conceitos e a grandiosidade que é fazer uso dessa tecnologia, inclusive no nosso ensaio, ela que criou a arte que estava coroando minha cabeça, @lolo.nago a página de trampos dela!







(EMPRESÁRIA, ESTILISTA, MODELO E FOTÓGRAFA)






Como foi a sua relação com a moda até chegar na fundação da sua empresa, a Original Favela? Bom, meu contato com a moda antes do Original Favela foi supérfluo. Principalmente porque eu não tinha condições de meter um kit que eu achava bonito ou que sei lá, tava nas ruas da época. Inclusive eu comecei a frequentar brechó, exatamente devido a isso. Acesso a artigos!

São Paulo é considerado um dos maiores polos da moda da América Latina e do mundo, você acha que a moda é acessível por aqui?


Eu não acho a moda acessível, pelo menos não pra nós pobre e preto. Mas hoje, nos dias atuais, eu reconheço que muitas pessoas chegaram em algum lugar por meio da moda, ainda é fraco, mas aos poucos eu tenho certeza que vamos quebrar barreiras. E quando falo sobre fraco, eu tô falando sobre fazer dinheiro, ganhar dinheiro e não sobre colocar conceito na rua e não ser pago por isso. Você considera uma contribuinte para a moda na quebrada nos últimos anos através da sua plataforma?


Com toda certeza, o Ori se iniciou em 2015 nós somos um dos primeiros brechós a fazerem editoriais fotográficos, desfiles e assinar com marcas, além de stylist no currículo. Em 2017 até quem não queria dividiu espaço conosco! Hoje tem vários outros brechós e até mesmo lojas, que nos têm como referência. SP é isso, a gente segue criando e inspirando, pouco pra entender.




Qual foi o maior presente que a moda trouxe para sua vida?


O maior presente que eu ganhei com a moda, foi me entender como artista em meio a tanta merda que a moda também me presenteou. Hoje eu sei quem sou, sei a potência do que faço e fiz, e isso ninguém tira de mim.


Quem mais te inspirou na sua caminhada através do quesito de estilo?


Pra ser honesta, nunca tive um ídolo no qual eu me inspirei, apesar de ser fã e acompanhar vários artistas do rap, tá ligado? Quem me inspirou e me inspira até os dias atuais, foram as pessoas que me rodeavam. Meus tios, meus avós, minha mãe, meu pai! Eu sempre achei muito foda vários artigos que meus pais usavam, uns até peguei pra mim. Minha inspiração são pessoas reais, pessoas que eu trombo na padaria num domingo normal na quebrada. Com o tempo óbvio que vários rappers me despertaram inspiração, mas de início mesmo eu sempre quis ser me vestir como os meus.


Qual época em sua vida que teve mais peças ou uma mania de estilo que você gostava e porque?


A fase mais dahora de artigos e looks pra mim foi uma época aqui em SP em que eu e minhas parceiras usávamos biquíni como composição de look. Nós éramos proibidas de entrar no shopping, em vários lugares. Além de que as pessoas julgavam (rs), achavam brega, diziam que biquíni era pra usar na praia. Por fim, foi uma época boa, que me trás boas lembranças, vários perrengues e a gente era feliz e com toda certeza impossível não lembrar dos artigos que a gente garimpava. Os brechós tudo, como? Cheio de coisa boa, não tinha concorrência ou grande procura como nos dias de hoje. O que você deseja que mude para os consumidores de moda e profissionais periféricos no mercado atual?

Meu desejo para quem trabalha com a moda e pra quem pretende trabalhar, é um mercado no qual a gente seja bem pago e respeitado pelo nosso trabalho. Desejo que nossa arte, nossa vivência, seja reconhecida e representada por quem realmente é, a rua tá cheio de dublê de favelado e quem realmente é daqui tá faturando 0 com isso. O que nós merecemos é o mínimo, tá ligado?!





(MODELO)




Você trabalha com o que atualmente?


No momento não estou trabalhando fixo, mas tenho meus corre que não deixa faltar nada, trampo sempre como modelo, e as vezes atuando em projetos ou fashion films. Na sua infância, como era sua relação com a moda e o vestir? Na minha infância eu nem pensava em mexer com moda, e nem me preocupava com estilo e com o que vestir. Minha mãe não tinha muito dinheiro, então nem exigia estilo específico nenhum pra mim. Fui vendo as referências nas ruas e quando passei a ter meu próprio dinheiro, comprava peças com as quais eu me identificava ou via os caras da quebrada/família usando.








Qual tipo de roupa você gosta de vestir no dia a dia?

No dia a dia eu gosto de estar confortável, com roupas leves. Uma peita, bermuda, uma havaiana ou kenner.

Existe alguma peça que você não vive sem? Eu não vivo sem um acessório, meu cordão de São Jorge, sempre estará no meu pescoço.





Você escolhe o que vai usar dependendo de onde vai?


Eu escolho muito o que usar dependendo do lugar, do clima... Ainda mais que eu sou um jovem negro né?! Tenho que pensar 2x sobre como devo me vestir, dependendo do lugar que eu for.

Acha que a moda periférica ainda é constantemente marginalizada pela sociedade em geral?

Eu acho que a moda periférica ainda é constantemente marginalizada pela sociedade. Um exemplo é que quando a policia ve um jovem negro usando chinelo, bermuda e juliete, o mesmo é logo enquadrado na rua, pois existe um estereótipo racista muito forte ligado ao nosso estilo. Mas brancos padronizados usando as mesmas peças, para eles soa apenas como um jovem alternativo, ou seja, passa batido sem ser importunado.





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