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RUDE: A CONEXÃO PERFEITA ENTRE BRASIL & JAMAICA

Atualizado: 4 de abr.



Desde que o mundo é mundo, povos e culturas tentam se conectar, absorver valores, ideias, trocas simbólicas etc, para que de alguma forma, possam evoluir para um caminho humano mais significativo.


A história do projeto RUDE, é a continuação dessas conexões loucas da humanidade, pautada desta vez, entre dois países, de sua maioria de afrodescendentes, onde suas culturas semelhantes - mesmo que distantes em quilometragem - se entrelaçaram num momento da história que foi crucial para que essas raízes criassem frutos em terras norte brasileiras. 


Tudo começou no Maranhão, a partir dos anos 1970, em especial na ilha de São Luís. Segundo histórias, o reggae tinha chegado pelas ondas de rádio emitidas do Caribe, e por marinheiros que, descendo no porto, traziam discos para os prostíbulos da ilha. Diziam que quando os marinheiros, que saiam do Porto de Kingston, faziam paradas nos portos do Maranhão, e consigo traziam discos dos vários gêneros musicais que inundavam o país naquele período de tempo. 


O que aconteceu foi quase que uma revolução, já que grande parte das pessoas que dominam e dominavam a cena do reggae em São Luís são negras, por isso, era (e ainda é) um espaço de identificação racial e social. Além disso, durante muito tempo o reggae foi visto de forma pejorativa, principalmente pelo fato de que a maioria dos clubes se encontravam na periferia da cidade, e a maior parte, em condições precárias.


Mas, a partir desse “novo movimento”, não só no norte do país, mas do sul, de leste a oeste, essa sonoridade se conectou com a maioria dos brasileiros. E então, foi criada uma ponte entre duas culturas, novas perspectivas e novas formas. 


E acho que a palavra “ponte” seria uma ótima definição para o projeto RUDE, Fundada pela Produtora, Mestra em Comunicação e Criativa Natália Amaro, residente da Zona Norte de Belo Horizonte. Uma ponte entre pessoas das periferias mineiras, com o reggae e suas vertentes, como o dancehall, o ska, o roots. 


Agora o destino final dessa ponte? É o que vamos descobrir através da conversa que tivemos com a Fundadora Natália e uma de suas DJ’s residentes, Bella Melina



RUDE / NATÁLIA



Como surgiu a ideia de criar a RUDE?


A proposta era criar uma pista para dançar à vontade ao som perfeito para isso: o dancehall.


Qual o conceito por entorno do projeto?


A curadoria é voltada para a música jamaicana junto a suas influências e origens na música africana e caribenha. A programação é composta por artistas que pesquisam as artes pretas, da Jamaica e do mundo. A qualidade do som é imprescindível: a batida é sentida no coração.


Qual e como foi seu primeiro contato com a cultura e música jamaicana?


Não me lembro do primeiro contato com a cultura da Jamaica. Lembro de ouvir Bob Marley no som do meu tio Halem e dos meus primos, que são artistas de todas as formas. Era adolescente, gostei do reggae da coletânea Talkin’ Roots do Bambu Station e fui atrás de mais.


Sempre achei bonita a forma de falar de amor: por Jah, pela natureza, pelo povo preto.

Adulta, fui tomando gosto pelo dancehall e seu jeito único de fazer a gente se mexer.





Como podemos fazer a RUDE parte instrumento e veículo para a mudança social em nossa comunidade? E qual a importância disso para cena underground de Belo Horizonte?


A RUDE já é um instrumento de mudança social porque coloca em evidência a arte feita por pessoas pretas, que constantemente são podadas de viver e criar. A pista da RUDE precisa ser um lugar confortável e gostoso para dançar e ouvir um som que transforma.


O reggae e seus subgêneros já são parte importante da cena underground de Belo Horizonte em outros projetos que acontecem há anos. A importância da RUDE está na manutenção dessa cultura, com uma proposta inclusiva e original.


Qual a relevância global de conectarmos a cultura e vivência de países afrodescendentes ,como a Jamaica e o Brasil?


A arte negra é o que mantém várias pessoas negras vivas. A música sempre foi uma forma de resistir no mundo que nos quer calados e sem sorrisos. A dança faz a gente mexer por vontade própria, sem objetivos alheios ou de dinheiro. A conexão que o dancehall, criado na ilha da Jamaica, tem com o restante do mundo não é coincidência ou sorte: é resgate da identidade negra, desmantelada ao longo dos séculos, mas que resiste e ressoa.


Qual a visão que você tem sobre o futuro da juventude RUDE?


Tenho sonhos grandes para a RUDE: quero convidar artistas que admiro de outras regiões do Brasil para Belo Horizonte; levar nossa pista para outras cidades, estados e países; construir palcos e públicos cada vez maiores; ter um sistema de som próprio; tornar a música jamaicana popular para a juventude da minha cidade; ser um projeto sustentável e rentável para mim e toda a equipe.







BELLA MELINA


Como foi receber o convite para ser residente da RUDE?


Foi muito bom, na realidade eu meio que me convidei né? (risos) mas ao externalizar esse desejo, soube que estava alinhada com a vontade da Natália também e foi e está sendo de uma alegria muito grande poder somar com esse projeto tão lindo que é a RUDE.


Qual sua relação com os ritmos musicais derivados da cultura reggae, como o dancehall, reggae e roots?

 

Desde muito nova, cresci com meu pai escutando reggae em casa, ou os botecos da minha quebrada, no interior de minas que sempre tocava bem alto nas jukebox; pra mim, na época, era meio banal e eu odiava, mas depois de mais velha desenvolvi uma admiração e curiosidade pelo gênero. A partir daí comecei uma pesquisa bem despretensiosa que me levou a ter contato com o dancehall e todos os subgêneros que compõem a cultura reggae. Atualmente sigo em busca de cada vez mais aprofundar essa pesquisa e continuar aprendendo tudo quanto for possível, faço parte de um coletivo de reggae e também faço aulas em um projeto formativo sobre culturas jamaicanas com enfoque nas danças.





Como você definiria sua pesquisa musical e qual a conexão dela com o projeto RUDE? 


Minha pesquisa é muito voltada à produção de mulheres e pessoas LGBTQ+. Em se tratando de música e artistas jamaicanos, ainda é um pouco complexo devido ao contexto sócio-cultural da Jamaica, que é bem diferente do BR e acaba que em alguns aspectos, as referências ainda são majoritariamente masculinas, mas tento ao máximo buscar essas refs que por vezes são invisibilizadas no movimento. A conexão que vejo com a festa RUDE é de justamente ser um espaço idealizado por uma mulher negra e LGBTQ+ e que trás consigo artistas de MG com esses recortes, é um ambiente seguro e que não está dominado apenas por homens cis, mas que valoriza e expõe toda a diversidade que simboliza o que é a música preta.


Acha que precisamos de mais espaços na cidade e projetos que abordem esse cenário musical? Porque? 


 Atualmente vejo uma crescente em BH de eventos que abordam esse cenário, porém ainda numa pegada não remunerada e as casas de festa (que são quem movimenta cash) apenas nos vêm para eventos temáticos. Não acho que fazer rolê na rua seja um problema, pelo contrário, a cultura reggae se estabelece como um evento de rua mesmo, gratuito, acessível e para o povo; a grande problemática que vejo são as instituições públicas que também movimentam cash, mas que segue nos ignorando em todos editais que saem anualmente, não fomentam nossa participação (enquanto movimentos reggae) e ainda, mesmo com a gente promovendo “na tora”, fazem questão de reprimir, oprimir e atrapalhar o que já está sendo feito independente deles.





Na importância de abraçar esse tipo de projeto, qual a responsa que os contratantes tem para os jovens que movimentam esse cenário?


Os contratantes que pensam em abraçar projetos como a Festa RUDE e tantos outros, precisam ter noção que essa é uma cultura viva e pulsante, é o nosso trabalho e por isso deve ser valorizado. A cultura reggae é muito mais que uma caricatura, é estilo de vida de muitas pessoas e atravessou o continente até aqui, o que demonstra toda sua potência; além disso, projetos estes que são protagonizados por mulheres e pessoas LGBTQ+ necessitam de atenção e cuidado por parte dos contratantes para evitar reprodução de violências com corpas que já são inferiorizadas e marginalizadas pela sociedade.





Direção de arte, fotografia, roteiro e redação: André Borges

Direção criativa, produção geral, comunicação e curadoria RUDE: Natália Amaro

Talento: Bella Melina


Fontes: Agência Câmara de Notícias / Agência Tambor 

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