top of page

SOBRE(A)VIVÊNCIA - A EXISTÊNCIA DE IDENTIDADES MÚLTIPLAS PARA ALÉM DOS PÓLOS URBANOS

Sobre jovens das cidades do interior do Brasil, sobre pessoas de cor e pessoas que desafiam o binarismo de gênero, reivindicando o seu lugar numa paisagem que durante tanto tempo os manteve invisíveis, e, celebrando isso através da nossa arte.


O interior do Brasil é dono de paisagens maravilhosas, mas ainda é um lugar brutal para pessoas periféricas, LGBTQIAP+ e racializadas, onde podem se sentir bastante isoladas e sozinhas em suas lutas sociais, de vivência e sobrevivência. O interior é testemunho vivo dos processos de colonização e também a cristalização material e, às vezes, social da nossa origem violenta colonial. Essas cidades, cercadas de florestas, montanhas e fazendas, há muito tempo são vistas como um pilar da hegemonia cristã e conservadora no país. Com uma ideia atrasada de gênero que defende a bandeira, preconceitos, cerveja e a heteronormatividade. Mariana, primeira capital de Minas, cidade onde foi rezada a primeira missa oficial do estado, traz consigo feridas abertas pelo colono.


Mas com o desenvolvimento destas pequenas cidades afastadas das metrópoles do país, seus jovens, com mais acessos, estão mudando o cenário e a forma de viver dentro desses espaços, que hoje estão sendo ressignificados. Colocando a liberdade sexual, corporal, artística e religiosa na pista, a juventude atual vem como um sopro de ar fresco para jovens que outrora viviam ainda sombras, excluídos ou totalmente esquecidos pelo estado.


Sendo assim, nos juntamos ao Diretor e Fotógrafo Lázaro, e fomos até a cidade de Mariana - cidade afetada pelo rompimento da barragem em 2015 - que fica a 2 horas da capital de Minas Gerais, na estrada real, para podermos registrar esses jovens e suas vivências diárias à margem da cidade e da sociedade, onde que estão buscando reivindicar a liberdade da existência dos seus corpos.


Debater sobre como a cidade, que vive majoritariamente da mineração, ainda reproduz socialmente e pelos meios de produção, padrões colonialistas. A cidade que pouco recebe fomento cultural e quando recebem, são direcionados a produções culturais que agradem o público visitante, turistas, em sua maioria branca - diferente da população local. Além disso, dissolvermos a imagem homogeneizante da grande mídia para com esses corpos que habitam as cidades do interior. Expor que existe nestas pequenas cidades movimentos de contracultura e sociais, como a militância negra, LGBTQIA+ e periférica.





Nos fale um pouco sobre você: como se deu a construção do seu Eu, as coisas que produz ou almeja produzir, sua relação com a cidade de Mariana, sua relação familiar.

Sou nascida e criada em Belo Horizonte, porém filha de um marianense que amava muito e sempre voltava pra cá quando podia. Venho de família evangélica fervorosa, e passei a morar na cidade durante a pandemia, após conseguir um emprego. Mudar pra cá me tirou um pouco do contexto religioso que eu vivia, e me possibilitou olhar pra mim mesma como travesti e começar a me expressar no mundo como tal.

Quais as influências empíricas de nascer, crescer, e ou residir em Mariana que existem na construção do seu Eu enquanto produtor?

Sou artista visual, e no momento estou tentando fazer as pazes com o ofício e buscar inspiração para produzir. Foi a região dos inconfidentes um dos primeiros lugares que eu expus minha arte em público, e foi aqui que eu consegui traduzir em mim o que meus desenhos retratavam. Mariana é um lugar que, apesar de tudo, me traz paz e permite transitar sem muito estresse.






Existe a imposição - inconsciente ou não - da necessidade do afastamento do interior para o reconhecimento de sua identidade plena e da necessidade da busca de outro espaço para a fomentação das possibilidades de produção?

Existe sim, embora eu tenha vivido um processo contrário, de sair da cidade grande para o interior para me afirmar em minha identidade. É nítido, porém, a diferença de tratamento e oportunidades entre aqui e a capital. Está desde o olhar torto constante até ser impedida de usar um banheiro público. Porém é interessante perceber que, por mais difícil que seja a realidade, nossa existência permanece e continua furando bolhas e ocupando espaços.

Me fale também sobre sua percepção da construção imagética e comunicacional sobre as intersecções no interior pelos grandes meios de comunicação. Existem, para eles, intersecções? A quebrada, o movimento LGBTQIA+ e Negro são representados quando tratamos de interior?

Pelo contrário. Percebo uma narrativa meio homogeneizante em como a mídia nos representa. São sempre pessoas que tem objetivo de sair do interior, ou convivendo em sociedade de maneira estereotipada e submissa.




Samuel Lucas, 24



Nos fale um pouco sobre você: como se deu a construção do seu Eu, as coisas que produz ou almeja produzir, sua relação com a cidade de Mariana, sua relação familiar.

A partir de vivências em meio a um ambiente braço e católico que é uma cidade histórica, rodeado de gatilhos que lembram as histórias de seus antepassados. Tentando me fortalecer por fora, porém com o interior um pouco deteriorado. Mas tamo aí vivão e vivendo.






Para além da identidade, Mariana é uma cidade que te define? Fale um pouco sobre a sua percepção sobre a construção dessas intersecções na cidade.

Essa construção provém do legado deixado pela escravidão que durou por mais de meio século nas cidades mineiras... considerando que Mariana é a primeira capital do estado. Mesmo sendo uma região voltada a mineração, onde os recursos da cidade são destinados, e também provém, quase 100% para festa atividade, a região tem um forte histórico cultural deixando pela arte barroca de modo geral... influenciando no estilo de vida de seus moradores e na em sua visão da arte.


Existe a imposição - inconsciente ou não - da necessidade do afastamento do interior para o reconhecimento de sua identidade plena e da necessidade da busca de outro espaço para a fomentação das possibilidades de produção?

Mudança de ambientes são sempre necessárias para o crescimento individual, mesmo estando em uma capital ou no interior. “Uma planta só cresce fora do vaso”.


Renato Ramos, 23




Nos fale um pouco sobre você: como se deu a construção do seu eu, as coisas que produz ou almeja produzir, sua relação com a cidade de Mariana, sua relação familiar.

Bom, sempre fui muito idealista de uma vida mais justa e igualitária, logo sempre participei de movimentos políticos que visem a mudança das estruturas, porém antes de pensar em mudar as coisas eu me encontrei na arte, fazendo aula nas escolas e projetos sociais que ofereciam de forma gratuita, ensinos de instrumentos e corais, assim pude conhecer muita gente e locais que contribuem ainda hoje para minha formação. Por esses e outros motivos faço arte com pensamento crítico, para incomodar as noções de uma vida "boa" sabendo que não basta minha libertação e ascensão, que todos nós podemos e devemos almejar uma mudança no comportamento geral. Acredito que a arte venha sim de família, meu avô materno era tocador de viola e meu pai é músico de samba/pagode, fora outros familiares que também são músicos independentes, dos mais variados ritmos.

Quais as influências de nascer, crescer, e ou residir em Mariana que existem na construção do seu Eu enquanto produtor?

A paisagem, as pessoas, o ar maçante de se estar em região de mineração, que consome até hoje o ideal de qualidade de vida, a desigualdade me fez pensar em querer mudar o que posso. Ouvir e acompanhar outros artistas me ajudam também.





Já se sentiu invisibilizado por essa narrativa de jovem do interior? No lugar em que a identidade, seja negra, seja LGBTQIA+, seja periférica, foi anulada por essa narrativa.


Com toda certeza, em uma batalha onde fomos convidados a participar o evento era encontro mineiro de saúde mental, pelo tom das rimas e críticas ao governo do bolsonaro, organizadores retiraram o microfone dos mc's e cortaram o som além de nos ameaçar, veja bem o evento em que fomos convidados. Certamente que uma banda de música ou qualquer outro artista não seriam tratados. Assim, só ofereceram água porque solicitamos, nem ofereceram cache. Certamente eu enquanto artista, observo tal apagamento dentre grupos locais não com raiva ou ressentimento, mas entendo que estamos apenas na trama estrutural da produção neoliberal de arte, tudo é pra vender ou se vangloriar de engajamento, como sou um pouco perfeccionista com o que produzo nem me afeto, porém sei que isso ocorre com outras pessoas que não estão nos holofotes locais o que é lamentável.





Nos fale um pouco sobre você: como se deu a construção do seu eu, as coisas que produz ou almeja produzir, sua relação com a cidade de Mariana, sua relação familiar.


Sou filha de pai carioca e mãe mineira, sempre tive uma grande conexão com Mariana por ser o lugar onde a minha mãe sempre pertenceu, apesar de ter sido criada na cidade do Rio. Quando me mudei para Mariana tive a oportunidade de me abrir mais em relação a minha sexualidade, minha saúde mental e me conectar com o meu eu interior, entendendo tudo aquilo que me assombrava por tantos anos, entendi também que para me conhecer, eu precisava conhecer as minhas origens e o meu passado no qual eu não tinha conhecido até o momento, graças a isso pude crescer como pessoa e me conectar com meus interesses, minha arte e ser a pessoa que sou hoje.



Me fale também sobre sua percepção da construção imagética e comunicacional sobre as intersecções no interior pelos grandes meios de comunicação. A quebrada, o movimento LGBTQIA+ e Negro são representados quando tratamos de interior?

Eu acredito que não, o interior tem uma imagem representada na mídia como um lugar atrasado onde todos moram em fazendas e ser a personalidade de todos é ser da "roça" e amar o interior e as implicações que vem com isso, como o homem ter que ser "macho" e um galã com um sotaque forçado e uma mulher delicada e submissa que não tem interesse em ir além do que o lugar oferece a ela.

Para além da narrativa dos grandes polos para com o interior, existe também uma narrativa própria em que - seja por falta de incentivo público ou incentivo familiar - é extinta a possibilidade de produção para além do polo da Mineração ou meio terciário, que é o forte em Mariana?

O ambiente da cidade não dá abertura para que as coisas mudem, Mariana é alimentada pela mineração a anos e isso faz sentido para a região, a mineração gera empregos e mantém a economia andando e consequentemente faz com que a própria cidade não precise fazer um esforço para atrair outros polos, como a vertente cultural ou turística, mas isso também tem suas consequências como a má relação que a cidade perpétua com a universidade federal e uma constante migração de pessoas, tanto de pessoas vindas pra cá na tentativa de uma melhora de vida e oportunidade de vínculo empregatício, como também o outro lado que a necessidade de muitas pessoas de sair da região por não pertencerem ao que o mercado tem a oferecer.





46 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page